Carta à comissão organizadora do Seminário vômito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura

Carta à comissão organizadora do Seminário vômito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura
Retirado do blog do Fenando Nogueira Costa

À comissão organizadora do Seminário vômito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura.

Essa semana, uma decisão judicial paralisou a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. A dimensão simbólica e material da obra não pode ser menosprezada, já que ela cristaliza um projeto político, econômico e antropológico desenvolvimentista (ou melhor, crescimentista) e que consiste em destruir a multiplicidade sócio-ambiental das formas de vida em nome de um padrão de riqueza etno- e antropocêntrico: a conversão de todo fluxo em energia, de todo curso em recurso, de toda diferença em poder. Uma das acionárias da Norte Energia, responsável pela construção de Belo Monte, é a Vale, empresa com um histórico lamentável de desrespeito aos direitos humanos e de devastação ambiental, tendo passado, além do mais, por um vexaminoso processo de privatização, ao mesmo tempo em que projeta em seu horizonte futuro diversos projetos que virão ampliar esse rol nefasto de feitos. Não por acaso, a Vale recebeu o “honroso” prêmio de “Pior Empresa do Mundo” esse ano. Assim sendo, espantamo-nos enormemente ao saber que a Vale — bem como as Organizações Globo, conhecidas pelo seu departamento de censura interna durante a Ditadura militar e suas recorrentes alianças com os donos do poder do turno — patrocina o seminário Vomito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura, para o qual fomos convidados. Em primeiro lugar, porque nunca fomos informados sobre tais patrocinadores, dos quais só tivemos notícia hoje (ontem) ao vermos o material de divulgação do evento. Mas, acima de tudo, porque não é possível compactuar com as práticas de tais empresas, especialmente em um seminário que se propõe a discutir a antropofagia oswaldiana, uma outra concepção de vida e mundo (além de uma prática artística) baseada nas cosmogonias e modos de vida ameríndios, diversa daquela gerida pelo que Oswald de Andrade chamou de “conúbio do Capital, do Oportunismo e do Terror”, conúbio materializado, inter alia, por corporações como a Globo e a Vale. Não será um total contrassenso? Esperemos que seja apenas isso, e não uma triste e reveladora convergência, uma vez que a proposta do seminário insinua uma insuficiência da antropofagia e sugere, no lugar desta, pensar a antropoemia, aquela prática que exclui pela inclusão, que impõe um modo de vida pela exclusão de todos os outros, que busca eliminar até mesmo toda possibilidade de modo de vida — uma prática que, como os zumbis dos filmes hollywoodianos, tenta nulificar toda alteridade em nome do mesmo (do morto-vivo). Esperemos, de fato, que seja apenas um total contrassenso. Mas de qualquer forma, não podemos participar dele.

Alexandre Nodari
Eduardo Viveiros de Castro

 

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Um comentário em “Carta à comissão organizadora do Seminário vômito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura

  1. A resposta da comissão organizadora:

    Caros Alexandre e Eduardo,
    gostaríamos de agradecer pela franqueza e atenção na carta que nos enviaram, como também comentar os pontos que levantam.
    Talvez a situação não seja um contrassenso (no sentido de um disparate), mas sobremaneira uma evidência das contradições advindas das complexidades do hoje. Não há dúvidas que seja contraditório; como também não há dúvidas de que se trata de uma situação muito mais ampla, sistêmica.

    Como informado desde o principio, o patrocínio ao Seminário é do MAR – Museu de Arte do Rio, que por sua vez tem como mantenedores as organizações citadas, razão pela qual foram incluídas na barra de logos como parceiras do Museu.

    Cônscios da complexidade das trilhas do dinheiro que fez possível o Seminário, não nos imaginamos numa situação de isenção diante do fato (já consolidado), mas, mais adiante, desejamos nos manter atentos e críticos, problematizadores; razão pela qual vocês foram convidados para adensar o debate. Cientes de que a autonomia de nossas ideias continua sendo mantida com absoluta liberdade mesmo após o momento em que passamos a contar com o apoio de quem quer que seja, estamos também certos de que o Seminário constituirá um espaço honesto de debate, em nada cerceado por quaisquer das organizações envolvidas. Ressalte-se, a propósito, que a única restrição intelectual que enfrentamos até agora (a recusa de Eduardo em discutir com Cocco) partiu de um dos âmbitos do Seminário do qual, inversamente, esperava-se toda a generosidade necessária ao debate crítico — mais um sinal de que há, de fato, uma densa complexidade em questão.

    Mas, confessamos, sem a oportunidade de debatermos sobre tudo isso, restarão conosco uma série de dúvidas, inquietações, divergências e desejos de interlocução que já carregávamos e outros, novos, que se somam após essa carta. Dentre muitas camadas, ficará também abafada a vontade de conversar sobre o próprio contrassenso apontado: como compreender as contradições de hoje, e como interpretar aquelas vividas pela referência que tomamos — Oswald de Andrade — em sua ascendência e relações aristocráticas com o quatrocentão paulista. Faíscam por aqui inquietações acerca de como vocês diferenciam as relações de dependência e autonomia (ou, noutra chave, de interdependência) daquele começo de século XX dessas de hoje.
    Se, antropofagicamente, nutrimo-nos todos do pensamento libertário de Oswald que, a despeito de sua intensidade crítica, não nos parece ter sido constituído num fora do conúbio por ele sublinhado, expressamos aqui nossa curiosidade de saber como vocês têm digerido os pa(i)trocínios de então, que inevitavelmente reverberam nos corpos devoradores de hoje — sejam os nossos, sejam os que movem Belo Monte. Sem essa oportunidade de conversa, nos restará apenas a suposição de que, pela forma como têm atuado, vocês têm transformado tal antropofagia modernista numa espécie de antropoemia contemporânea, que, ressaltamos, desde já tem nosso respeito por sua tentativa de “limpar”, através do vômito-não, as “impurezas” acumuladas ao longo de tantos séculos. Aos nossos olhos — e a despeito da posição inicial de Eduardo de não enxergar a possibilidade de uma positivação da versão pejorativa da antropoemia –, especialmente depois da carta de vocês e das inquietações dela decorrentes, o debate antropofagia-antropoemia passa, portanto, a fazer ainda mais sentido. Razão pela qual lamentamos a ausência de vocês na criação das divergências necessárias ao pensamento crítico, à criação e à vida.
    No mais, gostaríamos de saber se concordam em lermos a carta que nos enviaram na abertura do Seminário. Informamos que não cancelaremos o encontro do dia 24, visando manter o debate e o problema em aberto. Também avisamos ao Nodari que, caso ele deseje acompanhar o Seminário, poderemos manter as passagens e hospedagens já agendadas.
    Forte abraço,
    Ade Evaristo, Aldene Rocha, Aline Oliveira, Amanda Bonan, Andreia Santos, Clarissa Diniz, Maristela Pessoa, Sara Panamby e Tatiana Klafke.

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