Educação e Tecnologia – Software Livre em Instituições de Ensino Superior

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 08 de Janeiro de 2013

Este artigo é parte integrante da 29ª edição da revista Advir, da Associação de Docentes da UERJ. A revista pode ser obtida integralmente neste link, assim como todas as suas edições anteriores.

Há dez anos, em novembro de 2002, participei de um encontro de dois dias na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, intitulado SOLIES – Primeiro Fórum Nacional de Software Livre em Instituições de Ensino Superior. Dentre as instituições presentes no evento estavam a USP, UNICAMP, UNESP, UFMG, a própria Universidade Federal de São Carlos e o Centro Universitário Univates, por mim representado. Deste evento sairia a “Carta de São Carlos”, com as “Propostas de Políticas de Implementação e Uso de SL em IES”, a ser editada de forma colaborativa pelos participantes do evento e disponibilizada na página do SOLIES, iniciando um amplo processo de adesão. A carta não saiu. Onde erramos? Tenho alguns palpites.

O primeiro esbarra no óbvio vaidoso: estávamos à frente de nosso tempo. Mal se havia começado a falar de software livre no Brasil e alguns pioneiros, por um motivo ou outro envolvidos prematuramente nesta temática, acharam que suas certezas e contagiante paixão seriam o suficiente para uma ampla adesão das IES a uma filosofia tecnológica integradora através da qual todo o tipo de conhecimento estaria disponível a todos.

O segundo é a ignorância prepotente – e na maioria dos casos inocente – dos que pertencem à área de Tecnologia da Informação (TI). Durante décadas os computadores só eram dominados por aqueles que realmente dedicavam seu tempo e inteligência a entender sua complexidade, a aprender a conversar na linguagem das máquinas. Estávamos falando de sistemas administrativos acadêmicos, ambientes virtuais de aprendizagem, mas salvo alguma experiência lateral na área pedagógica, todos os que estávamos reunidos em São Carlos éramos da área de TI. Já havíamos virado o século, o acesso à internet já ampliava-se de forma acelerada, a geração Y já balbuciava e não tínhamos, entre os palestrantes, especialistas em Pedagogia, Psicologia Educacional e os poucos alunos presentes, como plateia, eram também da área de TI.

Independente destes erros não se pode desconsiderar ou desvalorizar, claro, a boa intenção de todos os que participaram deste evento. Mas, de boas intenções… Em março de 2002 escrevemos, eu e o Maurício de Castro, uma Proposta de convênio para o desenvolvimento de infraestrutura em Software Livre para sistemas de Educação à Distância (codinome FREIRE). Em nosso texto concluíamos que:

… a eficácia da utilização de métodos de Educação à Distância, EAD, deve levar em conta a forma pela qual as pessoas aprendem: indivíduos aprendem de maneira diferente, por isto sistemas de educação à distância devem levar em conta que cada indivíduo tem sua velocidade de aprendizagem, disponibilidade de tempo, maior ou menor necessidade de interação. Por que aprendemos sozinhos, com facilidade, algumas coisas e outras, mesmo com acompanhamento, são tão difíceis? Um sistema de EAD deve reproduzir o mais fielmente possível as formas naturais, independentes e intuitivas de aprendizagem.

e propúnhamos:

… a gestão interinstitucional do desenvolvimento deste sistema por um comitê formado por empresas e academia. O comitê irá definir as necessidades que o sistema irá atender e uma equipe de programadores (…) desenvolverá o FREIRE. Os testes práticos de aplicação serão acompanhados por pedagogos da academia e instrutores das empresas.

Nossa proposta não foi adiante. Onde erramos? Quais são os palpites agora?

A vaidade óbvia de estarmos à frente de nosso tempo segue válida. Mas, afinal, a inovação não ocorre justamente porque pessoas são capazes de pensar além do seu tempo? Por outro lado, como profissionais de TI, assumíamos já na proposta deste projeto que deveríamos ter, desde o início do desenvolvimento, a ajuda daqueles que conheciam práticas pedagógicas e tinham experiência com instrução. Também não estávamos pensando de forma isolada: a proposta era a de um convênio envolvendo empresas e instituições de ensino na criação de um ambiente virtual de aprendizagem do qual todos pudessem se beneficiar. A lógica era a mesma que víamos no desenvolvimento do Linux, do servidor web apache, do gerenciador de banco de dados PostgreSQL e tantos outros softwares livres.

À época da proposta do FREIRE vivíamos, no Centro Universitário Univates, em Lajeado, Rio Grande do Sul, um momento especialíssimo de sucesso e pioneirismo no desenvolvimento de soluções em Software Livre. O Sagu, nosso sistema aberto de gestão unificada já permitia que os alunos fizessem sua inscrição no vestibular e sua matrícula (com escolha de disciplinas, verificação de prerrequisitos e outras facilidades) através da web desde meados do ano 2000. A partir de 2002 todo o acesso à biblioteca da instituição já era feito, também, através da web com o sistema Gnuteca. Já havíamos desenvolvido o framework Miolo para o desenvolvimento em PHP, com uma série de características apenas encontradas anos depois em frameworks que viriam a se tornar muito mais populares. A equipe de desenvolvimento da Univates passou a ser contratada para implantar o Sagu e o Gnuteca em outras instituições de ensino pelo Brasil afora, além de ministrar treinamentos no desenvolvimento destes sistemas e em sua base tecnológica: a linguagem PHP e o banco de dados PostgreSQL. Ainda no ano 2000, antes mesmo do Sagu processar o seu primeiro vestibular, já apresentávamos o Sagu Workshop, um seminário de 40 horas de compartilhamento do conhecimento daquilo que construíamos, buscando sempre a cooperação em nossos desenvolvimentos. O Sagu Workshop transformou-se, mais tarde, nos Seminários de Desenvolvimento de Software Livre (SDSL) que, em seu auge, tiveram a participação, além da Univates, da Unicamp, Unisinos e UnB.

Em 2003, fruto do estudo de um modelo de negócios que viabilizaria a terceirização dos serviços de suporte e desenvolvimento para a Univates, foi fundada, por alunos, funcionários e docentes da instituição a Solis, a primeira cooperativa de integração e desenvolvimento de soluções em software livre do mundo. A decisão que levou a isto baseava-se no simples fato de que o Centro Universitário Univates era uma instituição de ensino, não uma fábrica de software, mas que devia aproveitar a oportunidade que tinha para alavancar o desenvolvimento tecnológico regional, com geração de emprego e renda, permitindo que mais pessoas tivessem condições de manter seus estudos superiores na própria Univates. A Solis emprega, hoje, cerca de 60 pessoas de forma direta ou indireta, a maioria absoluta delas alunas ou egressas da Univates. Por que cooperativas ou empresas de desenvolvimento de software livre, nascidas de projetos iniciados em instituições de ensino, ainda são raras e honrosas exceções? Por que o modelo Univates/Solis não foi amplamente copiado por mais regiões do Brasil?

Os professores Derek Keats e Madiny Darries propuseram em 2004, em seu trabalho “Towards a Knowledge Ecology Strategy for the University of the Western Cape (UWC)”, a adoção de software livre pela UWC, universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, tomando como uma das referências o “Estudo de Caso da Univates” que os mesmos haviam produzido. Segundo uma pesquisa feita pelos autores junto a estudantes de universidades sul-africanas, o valor percebido pelos mesmos na instituição de ensino que frequentam está no conhecimento que adquirem em sua passagem pela instituição, no processo de aprendizagem que leva a tal conhecimento (capacidade dos docentes em transmitir o conhecimento, metodologia de ensino) e no reconhecimento da própria instituição em seu meio (pesquisa, inserção comunitária, colocação de egressos no mercado de trabalho). Vários outros fatores – como o próprio conteúdo usado nos cursos, dados e informações utilizados na gestão administrativa ou acadêmica e os sistemas administrativos – são comuns para qualquer instituição de ensino e, por isso, tidos como uma base necessária (assim como as instalações elétricas e sanitárias), mas que não necessariamente agregam valor ao processo educacional (Figura 1). Faz sentido, portanto, que instituições trabalhem em conjunto no desenvolvimento e integração de sistemas que atendam a esta base e diferenciem-se onde os alunos e a comunidade, na qual está inserida, realmente percebam valor.

Figura 1: Cadeia de valor do processo educacional (Keats & Darries)

Relendo hoje o trabalho de Keats e Darries, parece claro que não há mudança significativa na cadeia de valor do processo educacional. Hoje faz mais sentido, porém, pensar que os conteúdos de aprendizagem, ambientes de educação à distância, dados, informações e sistemas administrativos residam “na nuvem” e estejam acessíveis a todos os indivíduos e instituições. Vale ressaltar que Keats e Darries, na construção dessa cadeia de valor ouviram os alunos das instituições de ensino da África do Sul.

Quem são os alunos hoje? Quais são as instituições de ensino hoje? Como estabelecem-se as relações entre os alunos e entre eles e as suas instituições e qual o papel do software livre, em particular, e da tecnologia da informação de uma forma mais ampla, nestas relações?

Recentemente participei de uma atividade de extensão em uma instituição de ensino comunitária: um minicurso sobre o software livre Blender para autoria em três dimensões, produção de animações e edição linear de vídeo. Na sala onde ocorria o minicurso foi disponibilizado um material que divulgava um evento sobre moda, ensino, estilo e tendência que ocorreria na mesma instituição, com um link para a página deste evento no Facebook. O detalhe é que o acesso ao Facebook e a várias outras redes sociais estava bloqueado neste laboratório. Esta é uma situação comum em muitas instituições de ensino. É impossível estabelecer com os alunos um diálogo sobre liberdade tecnológica e, ao mesmo tempo, censurar seu acesso à internet.

As desculpas para este tipo de censura são muitas, nenhuma delas é válida e todas partem de um setor administrativo e burocrático de TI que não entendeu o avanço da tecnologia como utensílio, commodity, e apenas promove o atraso do real avanço pedagógico e integralizante das redes. É a ignorância prepotente – inocente e bem intencionada – que mencionei no início deste artigo e que está com os dias contados, já que o que é utensílio tecnológico seguirá rapidamente migrando, sem dó nem piedade, para a nuvem.

Uma porção considerável do que utilizamos, hoje, já está na nuvem. Editamos textos, criamos apresentações, planilhas, gráficos, animações sem a mínima necessidade de termos algo além de um navegador instalado em nosso computador, tablet ou telefone celular. Nossas relações estão na nuvem: a turma de amigos do ensino médio, as fotos de família, os trabalhos que desenvolvemos colaborativamente com os colegas de aula ou da empresa. Resta discutir de forma ampla, pragmática e contemporânea a quem confiamos nossas informações, nosso comportamento, e o quanto somos capazes de abrir mão de nossa privacidade em troca de um eventual conforto.

Os alunos do minicurso do software livre Blender eram todos da área de comunicação, de design. Os computadores usados foram Macintoshes da Apple. Lembro de longas discussões, iniciadas há mais de dez anos sobre a “necessidade” de se substituir sistemas operacionais proprietários dos desktops e notebooks por sistemas operacionais livres. O Linux não chegou a alcançar um percentual muito significativo, considerada toda a amplitude de computadores pessoais. Mas o Android, baseado em Linux (ainda que isto não seja muito propagandeado fora dos ambientes mais tecnológicos), já ultrapassou todos os outros sistemas usados em telefones celulares inteligentes. O próprio Mac OSX, sistema operacional das máquinas da Apple, é baseado no FreeBSD, um outro sistema operacional livre.

Facebook, Twitter e quase a totalidade das aplicações oferecidas pelo Google estão baseadas em softwares livres. Nós as utilizamos através de navegadores de código aberto em uma maioria crescente (Figura 2).

Figura 2: Estatística mensal de uso de navegadores para a web (fonte: w3schools.com)

No campo da supercomputação o Linux simplesmente ocupou o lugar de seu irmão mais velho, o sistema operacional Unix, e segue imbatível (Figura 3).

Figura 3: Sistemas operacionais usados nos 500 maiores supercomputadores (Fonte: TOP500)

A motivação fundamental para que o software livre esteja muito presente nas instituições de ensino superior é a de que ele é onipresente em tudo o que está relacionado com inovação tecnológica, mobilidade, computação em nuvem, redes sociais e outras aplicações que as pessoas utilizam na web, através dos navegadores de sua preferência. Não é exagero dizer que, do ponto de vista do usuário, o navegador web (ou sua encarnação em apps para celulares) é o novo computador.

Há que se fazer, entretanto, uma releitura do significado da palavra “inovação”. Há que se criar uma nova mentalidade que reconheça que tudo está posto, quase tudo já foi criado e não existe mais espaço para a “grande inovação”. Mas há cada vez mais espaço para ideias de todos os tamanhos que, a partir do todo posto, gerem combinações inéditas que representem pequenas inovações incrementais acima do tudo criado. Na graduação, os alunos devem tomar conhecimento dos trabalhos de conclusão de curso dos estudantes dos anos anteriores e incentivados a dar continuidade a eles, não de forma isolada mas em grupo. Melhor ainda se este grupo for estabelecido de maneira institucional, internacional até, e que o trabalho seja construído de forma aberta através das muitas ferramentas hoje disponíveis: as redes sociais, por exemplo, bloqueadas em tantas instituições de ensino superior.

O aluno é o principal agente de uma instituição de ensino. Alunos existem em maior quantidade que professores e é para o aluno que as atividades de aula são desenvolvidas. E, como bem apontam Keats e Darries – e extrapolo – o conteúdo educacional é um diferencial tão importante para os alunos quanto a presença de papel higiênico nos banheiros. Para deixar bem claro, o conteúdo educacional deve ser bom e estar presente, mas não é ele que diferencia uma instituição de ensino da outra. Por que não trabalhar, então, o conteúdo educacional dentro da mesma metodologia de desenvolvimento de softwares livres, de forma aberta e colaborativa? Ao mestre, no que diz respeito ao conteúdo de aula em sua maior parte, caberia mais fazer pequenas adições e adequações a conteúdos e objetos de aprendizagem existentes, disponibilizando publicamente, também, suas contribuições. Fica então, o mestre, com a mais nobre função de apontar direções e remover obstáculos no caminho da aprendizagem de seus alunos.

Em suas aventuras, fora da sala de aula, os alunos também devem agregar novas descobertas e conteúdos e ter o reconhecimento de sua aprendizagem feito de uma forma mais eficaz do que provas e avaliações que tendem a medir apenas um espaço mínimo e momentâneo de conhecimento, extraindo o aluno de sua situação de vida normal atual e não reproduzindo, sequer, situações que ele poderá enfrentar em seu futuro como profissional.

No limite, um “selo” adquirido por ter completado um curso livre sobre buscas na web deve compor o histórico escolar do aluno. O volume de colaboração conseguido no desenvolvimento aberto de um trabalho de graduação (medido, por exemplo, por linhas de código inseridas pela comunidade de desenvolvimento através de um sistema de controle de versões, por linhas de texto recebidas em um documento compartilhado, ou através de “curtidas” e comentários em redes sociais) também podem compor a nota final do aluno.

A forma através da qual softwares livres são desenvolvidos, a sua capacidade de geração de inovação agregando pessoas que desenvolvem colaborativamente e o reconhecimento meritocrático destes colaboradores certamente apontam caminhos interessantes para uma nova maneira de tratar o ensino superior. Mas o software livre é um mínimo espaço dentro de toda a gama de conhecimento livre com a qual podemos ir ao infinito e além, mirando o que está adiante sentados nos ombros dos gigantes, parafraseando ao mesmo tempo Buzz Lightyear e Bernardo de Chartres.

Este artigo é parte integrante da 29ª edição da revista Advir, da Associação de Docentes da UERJ. A revista pode ser obtida integralmente neste link, assim como todas as suas edições anteriores.

 

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